GUITARRA

A guitarra pertence à família dos instrumentos de cordas dedilhadas e é munida de um braço. Em vez de vibrarem em todo o seu comprimento as cordas podem ser encurtadas pela pressão dos dedos da mão esquerda sobre este braço.

guit2.GIF (86705 bytes)As origens são obscuras. Numerosos instrumentos deste tipo foram utilizados na Antiguidade. Com efeito descobriram-se representações em baixo-relevos assírios e hititas que remontam a mais de 1000 anos antes da nossa era. Contudo, a guitarra vai buscar o seu nome a instrumentos sem braço (Kettarah assírio e Kiqaja grego) donde podemos supor que a guitarra derivou das citaras gregas e romanas às quais teria sido acrescentado um braço nos começos da nossa era. Seja como for, desde o sec. XI ou XII existiam dois tipos de «guitarra» ou «guiternes»: a mourisca («guitarra mourisca»), transportada às costas e aparentada com a «mandora» (secs. XIV a XVIII) e com a família dos ALAÚDES assim como com a do BANDOLIM; a latina («guitarra latina») com o fundo chato como a guitarra actual, tem ilhargas ligando o tampo superior ao tampo inferior. A primeira tese é a favor duma origem oriental (uma espécie de alaúde assírio, passando pela Pérsia e Arábia, teria conquistado a Espanha sob a dominação mourisca); a segunda é a favor de uma origem greco-latina. Um e outro tipo de instrumento estão representados nas miniaturas das Cantigas de Santa Maria, atribuídas a Afonso X «0 Sábio» (cerca de 1270). No sec. XIV, Machaut e Eustache Deschamps citam a guiterne sem precisão do tipo, mas parece tratar-se da guitarra «latina», já que da sua irmã mourisca resultou a «mandora». No sec. XVI, apareceu uma riquíssima literatura para a guitarra e sobretudo para a «viola de mão», espécie de grande guitarra, conhecida na Península Ibérica desde o sec. XIII e que, de 1520 a 1580 aproximadamente, eclipsa a guitarra antes de ser suplantada por esta última. Até aos começos do sec. XVIII, toda a música de «viola» ou de guitarra é escrita em «tablatura» (V. ALAÚDE). É o caso dos cinco Livros de Tablatura de Guiterne de A. Le Roy, publicados em 1551 por seu cunhado, o editor Ballard, assim como do Libro de Musica de vihuela de mano intitulado El Maestro de Milan (1536).

Em 1586, apareceu o primeiro tratado de guitarra. Diz respeito a um instrumento de 5 cordas duplas (as guitarras precedentes tinham apenas quatro e a viola seis) que se chamou, por esta época, «guitarra espanhola».

Infotrmação sobre a guitarraA guitarra clássica, tal como ainda é construída nos nossos dias, está munida de seis cordas simples (sem dúvida desde os últimos anos do sec. XVIII, porque Sor utiliza já a guitarra de seis cordas). As três agudas, são de tripa; as três graves de seda, envolvidas em fio de metal (cordas fiadas); o seu acorde é, do grave ao agudo,

Mi-Lá-Ré-Sol-Si-Mi, dando ao instrumento uma extensão de três oitavas e mais uma quinta (Mi1, a Si4). O braço esta recoberto por. uma régua de madeira dura (ponto) dividida por «trastos» em dezanove «secções» correspondendo aos meios tons temperados. Pode obter-se uma grande diversidade no timbre e na expressão através da forma como se ataca a corda (com a unha ou com a polpa, mais ou menos afastado do cavalete) e segundo a utilização de artifícios, tais como notas ligadas, trilos, vibratos, trémulos, sons HARMÓNICOS (o mesmo principio que para os outros instrumentos de corda), etc. O jogo melódico e contrapontístico da guitarra clássica qualifica-se de «ponteado», por oposição ao jogo «rasgado» (acordes secamente arpejados nos dois sentidos), reservado geralmente a música popular.

O mais ilustre guitarrista de todos os tempos (exceptuando Paganini. que passa por ter tocado este instrumento tão bem como o violino) foi Fernando Sor (1778-1839), autor de admiráveis composições para este instrumento. Foi seguido de D. Aguado y Garcia (apreciado por Bellini, Paganini e Rossini), aluno dum tal Miguei Garcia que recebeu ordens sob o nome de Padre Basilio, M. Giuliani (cujo talento causou admiração a Beethoven), e mais recentemente, F. Tárrega. M. Llobet, A. Segóvia.

As guitarras (nomeadamente. Stradivarius. fez duas), só apresentam um interesse de colecção. A grande manufactura e representada principalmente por A. de Torres (segunda metade do sec. XIX).

(CANDÉ, Roland de: A Música - linguagem, estrutura e instrumentos, Lisboa, Edições 70, 1983)

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