Título: Formação contínua de professores a distância: o Projecto TRENDS
Maria João Loureiro 1, António Carlos Leal 2 e António Moreira 1
1 DeptΊ de Didáctica e Tecnologia Educativa, Universidade de Aveiro, Aveiro
2
Escola Secundária Jaime Magalhães de Lima, AveiroTítulo: Formação contínua de professores a distância: o Projecto TRENDS
Tipo de participação: comunicação
Resumo: A presente comunicação tem por objectivo apresentar alguns dos trabalhos que se têm desenvolvido no âmbito do Projecto TRENDS ("TRaining Educators through Networks and Distributed Systems"). Na introdução faz-se um resumo das características que marcam os sistemas de aprendizagem a distância com recurso às tecnologias de comunicação avançadas e situam-se os parceiros do projecto. Nos pontos seguintes, além de se referirem os objectivos do projecto, descrevem-se as fases que, de uma forma mais relevante, contribuíram para definir quer o tipo de formação a realizar (levantamento de necessidades) quer a sua filosofia de base (nomeadamente os cenários de aprendizagem a adoptar). Referem-se ainda, de uma forma mais sucinta, as estruturas tecnológicas e os serviços que têm servido de suporte às acções de formação que estão a ser ministradas na fase piloto do projecto fase de formação que se encontra em curso.
1. Introdução
Devido às tecnologias avançadas de comunicação, a terceira geração do ensino a distância apresenta potencialidades que permitem frequentar qualquer curso duma vasta lista publicitada em qualquer local em que estas tecnologias são implantadas, leccionado por especialistas de locais mais ou menos distantes, do país ou de outros países.
As telecomunicações avançadas abriram oportunidades de frequência de cursos à distância mais adaptados às necessidades dos formandos, com maior interactividade, oferecendo mais potencialidades de individualização da aprendizagem e em que o formador não é apenas o transmissor de conhecimentos e o formando um receptor passivo.
A diversidade de percursos de aprendizagem e consequente individualização prende-se também com o tipo de materiais que são postos à disposição. Estes materiais exploram estruturas de hipermédia (ramificadas e que possibilitam ligações muito variadas entre as diferentes partes dos documentos). Por outro lado, podem ser materiais multimédia (explorando som, texto, imagem fixa ou filme) com as vantagens que daí advêm.
No que respeita à interactividade, é de referir que estes sistemas permitem interacção não só entre formador / formando mas também entre os próprios formandos. Esta facilidade resulta do facto de o ambiente de aprendizagem uma vez criado poder ter identificados, entre outros, os formandos e seus interesses, o que possibilita o desenvolvimento de tarefas colaborativas. A rapidez de transmissão da informação facilita também a interactividade destes sistemas.
Atendendo à contínua evolução do conhecimento, os agentes de ensino têm que estar em formação permanente para fazer face aos desafios de uma sociedade sempre em mudança. Em Portugal, de acordo com o Estatuto da Carreira Docente, os professores dos Ensinos Básico e Secundário necessitam de ter a sua formação contínua devidamente creditada para progressão na carreira.
As acções de formação contínua de professores podem resultar da iniciativa de instituições do Ensino Superior ou ainda de outros estabelecimentos de ensino, individualmente ou em regime de cooperação institucional, nomeadamente entre instituições de ensino público, privado e cooperativo como no caso das associações de escolas.
Desde a criação da Universidade Aberta em Portugal existem cursos a distância. As tecnologias utilizadas podem inscrever-se nas primeira e segunda geração do ensino a distância (Trindade, 1993).
Neste trabalho apresenta-se um projecto internacional, o Projecto TRENDS - "TRaining Educators through Networks and Distributed Systems", inovador em Portugal. Trata-se de um projecto inovador visto visar a formação contínua de professores a distância, explorando tecnologias avançadas de comunicações, ser centrado na escola e privilegiar a colaboração entre os agentes envolvidos.
O projecto TRENDS (ET 1024) é financiado pelo Programa Europeu Telematics e engloba um consórcio de instituições de seis países: Espanha, França, Grécia, Inglaterra, Itália e Portugal (http://www.lrf.gr/english/trends/trendshome.html). Do consórcio português fazem parte a Associação de Escolas de Aveiro Centro de Formação José Pereira Tavares , as Universidades de Aveiro e do Minho, o Centro de Estudos e Telecomunicações (CET) da Telecom Portugal, gestor nacional do projecto, e o Ministério da Educação, através da Direcção Regional de Educação Centro (DREC).
2. Objectivos do Projecto TRENDS
Como referido no "Annex 1 - Project Programme" do Projecto TRENDS, o objectivo principal desta iniciativa aponta para a formação de 2400 professores no uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) no processo de Ensino / Aprendizagem. Em cada um dos países envolvidos prevê-se a formação de 400 docentes, distribuídos por 20 escolas dos 2Ί e 3Ί Ciclos do Ensino Básico e do Ensino Secundário. Actualmente, no caso do piloto português estão inseridas 40 escolas no projecto, havendo ainda professores em formação, provenientes de outras escolas.
De acordo com Tsakarissianos e Koutra (1997), são também objectivos deste projecto de formação a distância:
3. As fases do projecto
O projecto está a ser desenvolvido em diversas fases que se apresentam na tabela 1.
Nas secções seguintes abordaremos o levantamento das necessidades de formação, os cenários de aprendizagem e as metodologias de avaliação retidos no projecto.
Relativamente à formação, como se indica na tabela, procedeu-se primeiro à formação dos professores responsáveis pelo projecto nas escolas (líderes professores que têm a seu encargo o apoio aos colegas e às actividades nas escolas em que decorre a formação). A formação destes professores passou pela organização de um "workshop" que teve lugar em Creta, em Setembro de 1997 (Tsakarissianos, 1997). Entre os objectivos do "workshop" constava (i) facilitar o contacto entre os professores líderes de todos os países participantes e (ii) equacionar interesses comuns.
A fase piloto do projecto começou, em Portugal, no quarto trimestre de 1997 e está ainda em curso ( http://trends.dts.cet.pt ). Loureiro e Flores (1998), nestas actas, relatam a sua experiência enquanto formadoras no âmbito do Projecto TRENDS. Uma primeira reflexão e avaliação das acções que dinamizaram, bem como os correspondentes ajustes, é também descrita pelas autoras.
Tabela 1- Fases de desenvolvimento do Projecto TRENDS
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Fase |
Duração |
Objectivos |
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Gestão |
Todo o projecto |
Coordenação e administração geral do projecto. |
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Divulgação |
Todo o projecto |
Divulgação das actividades do projecto, através de reuniões, revistas, "workshop", |
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Identificação das necessidades e dos requisitos telemáticos |
9 meses |
Detectar necessidades dos utilizadores quanto aos serviços, sua interface, conteúdos de formação, estratégias de formação, |
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Definição do modelo de formação |
6 meses |
Definição do modelo de formação baseado nas necessidades anteriormente detectadas. |
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Desenvolvimento dos serviços |
6 meses |
Desenvolvimento dos serviços numa arquitectura cliente-servidor, integrado ferramentas existentes. |
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Estabelecimento do ambiente de teste e verificação |
12 meses |
Estabelecimento dos Centros de Treino nacionais, integração dos serviços, teste e verificação; formação dos líderes de escola. |
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Disseminação dos serviços |
12 meses |
Divulgação dos serviços junto das escolas e entidades ligadas ao sistema educativo; formação de, pelo menos, 20 professores por escola. |
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Acompanhamento e avaliação |
Todo o projecto |
Definição das estratégias e metodologias a explorar; acompanhamento do projecto e avaliação dos resultados intermédios e finais |
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Planos de exploração |
12 meses |
Desenvolvimento dos serviços visando a sua potencial introdução comercial (aumento da área geográfica, do número de utilizadores e das temáticas abordadas). |
3.1. Necessidades de formação
De acordo com a metodologia adoptada nos diferentes países, foram efectuados "workshop" e realizadas entrevistas, por forma a estabelecer um ponto de partida para a definição do instrumento a explorar junto de potenciais utilizadores e obter uma visão global das necessidades de formação. Dos resultados dos "workshops" e das entrevistas, realizadas com peritos na área e professores com experiência de utilização das TIC na Educação, foi desenvolvido um questionário que, em Portugal, foi respondido por 290 professores.
Da análise comparativa dos resultados (capítulo 3, do relatório 3.1) ressaltam os seguintes aspectos no que respeita aos conteúdos da formação:
O relatório português 3.1 indica que, no que concerne aos modelos de formação desejados pelos professores, é dada prioridade ao trabalho colaborativo através do envolvimento dos formandos em projectos educativos. Entre as prioridades para uma eventual cooperação com colegas de outras escolas sobressaem a permuta de materiais de ensino, a troca de experiência de ensino e a planificação conjunta de actividades.
3.2. Cenários de Aprendizagem do Projecto TRENDS
A partir das necessidades de formação identificadas na terceira fase do projecto foi definido o modelo de formação a implementar. O modelo de formação integra três vertentes fundamentais: institucional, pedagógica e tecnológica (ver relatórios de progresso 4.1 e 4.2 e Aranguren e Cabello, 1997).
O modelo foi concebido por forma a:
Neste comunicação debruçamo-nos mais sobre a vertente pedagógica do modelo, i.e. sobre os cenários de aprendizagem a distância, que explorem TIC, considerados relevantes para o projecto: Classe Virtual, Auto-Aprendizagem Suportada e Aprendizagem Colaborativa.
No âmbito do projecto é suposto explorar todos os cenários de aprendizagem a distância acima identificados. Subjacente a esta opção está a convicção de que a escolha fundamentada de um determinado cenário não pode ser efectuada sem vivenciar as interacções que outros possibilitam. Contudo, indo ao encontro do actualmente defendido em termos educativos (ver, por exemplo o capítulo 7 do relatório 4.2 do projecto e Lopes, 1997) e dos resultados do levantamento de necessidades, o cenário privilegiado é o da aprendizagem colaborativa.
3.2.1. Cenário da Classe Virtual
Visto o professor ser o transmissor dos conteúdos, na classe virtual o material de ensino é criado e adaptado pelo professor às necessidades dos alunos. Neste cenário o(s) professor(es) é(são) normalmente perito(s) nos assuntos em estudo. Este facto constitui uma das vantagens do cenário.
Para que exista interacção real entre o formador e os formandos, este tem de facilitar a informação requerida, motivar os formandos a desenvolver atitudes positivas que permitam a inovação.
Dado que os professores podem não estar familiarizados com as tecnologias a usar, podem achar difícil expressar os seus comentários e contribuições de modo espontâneo. Nesta situação é vital que o formador seja o animador, que além de capacidades de liderança de um grupo também requer mestria técnica em comunicação a distância.
Este cenário é centrado no professor. No entanto, tal como numa aula presencial, os formandos podem colocar questões e fazer comentários para clarificação das temáticas abordadas.
Independentemente das opções tecnológicas utilizadas, o formador deve avaliar os conhecimentos e capacidades dos alunos através de propostas de actividades e trabalhos que podem explorar tecnologias sem ser em tempo real.
3.2.2. Cenário da Auto-Aprendizagem Suportada
O princípio de base do cenário de auto-aprendizagem suportada é, como o nome indica, a auto-formação. Contudo, dada a exploração das TIC neste cenário, a auto-formação é complementada com o suporte / ajuda de todos os elementos envolvidos na formação.
No que respeita ao material de aprendizagem e de avaliação, este deixou de ser essencialmente em suporte impresso, para passar a estar disponível electronicamente. Além disso, dadas as características do material explorado hipermédia e multimédia a individualização do processo de aprendizagem é mais cabal.
O suporte tutorial é também facilitado, uma vez que a comunicação é mais rápida e versátil, o que reforça a motivação e o processo de auto-formação.
3.2.3. Cenário da Aprendizagem Colaborativa
Hoje em dia a exploração das novas tecnologias de comunicação, tais como o correio electrónico, os Fora e as conferências electrónicas, possibilitam a comunicação não só entre formador e formandos (comunicação vertical) mas também entre os formandos (comunicação horizontal). Assim, é possível haver troca de informação e trabalhar colaborativamente.
O formador adopta neste cenário o papel de dinamizador e moderador das discussões, mantendo-as, sugerindo tópicos e soluções para as questões que se forem revelando pertinentes.
A avaliação da formação é agora efectuada por todos os que nela participam, daí resultando alterações sugeridas no decorrer do processo, de maneira a adaptá-lo às necessidades de formação emergentes.
4. Estruturas Tecnológicas e Serviços
Em Portugal, como já foi mencionado, estão ligadas ao projecto 40 escolas, todas elas com estruturas de telecomunicações baseadas na rede RDIS (Rede Digital Integrada de Serviços) que permite uma velocidade máxima de 128 Kbps.
Tal como especificado no relatório 3.2 do projecto, embora com pequenos ajustes, a arquitectura da plataforma portuguesa TRENDS baseia-se na adopção das seguinte especificações:
O piloto português foi implementado usando serviços comerciais da Telecom Protugal já anteriormente experimentados no âmbito da rede RIA ("Research In Action"), que cobria escolas da região de Aveiro e outras instituições.
Em cada escola foi implementada uma rede LAN (rede de acesso local), baseada em Windows. O Router (gestor da rede) RDIS permite acesso permanente a 64Kbps por canal.
No Centro de Treino está instalado o servidor que também usa a rede RDIS e permite o acesso às comunicações via Internet com os outros centros de formação TRENDS da Europa.
Esta estrutura tecnológica possibilita que em cada escola os professores em formação possam usufruir dos seguintes serviços: correio electrónico ("email"), transferência de ficheiros (FTP), comunicações em tempo real (IRC "Internet Relay Chat", Tele e Vídeo-conferência), navegação e pesquisa na Internet, Fora de discussão e espaços de interesse comum ("News").
5. Comentários finais
No que respeita à formação de professores, os valores acrescentados do projecto prendem-se com o cenário de aprendizagem privilegiado, a saber, entre outros, o aumento do espírito de colaboração, a cooperação entre pares, a solidariedade, melhor conhecimento doutros sistemas educativos, acesso a mais e melhor informação.
A nível europeu deve ser realçada a criação de uma Rede de Formação de Professores a Distância, bem como o desenvolvimento e validação dos serviços em que ela se baseia. Como salientam Tsakarissianos e Koutra (1997), a rede TRENDS constitui um esforço original para articular as autoridades nacionais no domínio da educação, com vista à implementação de planos mais amplos de exploração da telemática educativa. Os mesmos autores salientam também o facto de as estratégias de exploração das comunicações avançadas nos diferentes países serem comuns, bem como o acompanhamento e avaliação do projecto, apesar de adaptados às realidades nacionais.
Bibliografia
Aranguren, I. e Cabello, P. (1997). TRENDS: School-Based Distance Training Model. The Newsletter of Telematics Applications Projects - T3, TRENDS and REM, 3 (February 1997), 4.
Dori, Y. J. e Barnea, N. (1997). In-service Chemistry Teachers' Training: the Impact of Introducing Computer Technology on Teachers' Attitudes and Classroom Implementation. International Journal of Science Education, 19(5), 577-592.
Lopes, A. M. C. (1997). Que Papel para a Telemática na Educação? http://www.iep.uminho.pt/marcel/home/art-95.htm .
Loureiro, Mͺ José e Flores, F. (1998). Uma experiência de formação no âmbito do Projecto TRENDS, nestas actas.
Trindade, A. R. (1993). Basics of Distance Education: The Conceptual Panorama of Distance Education and Training. Oslo: EDEN (European Distance Education Network).
Tsakarissianos, G. (1997). TRENDS School-Leaders Workshop. The Newsletter of Telematics Applications Projects - T3, TRENDS and REM, 5 (Winter 97/98), 3.
Tsakarissianos, G. e Koutra, C. (1997). School Network for In-service, School-Based Teachers Training: The TRENDS Project. In School Education in the Information Society: Open Classroom II Conference. Atenas: Kastaniotis Editions.
TRENDS - TRaining Educators through Networks and Distributed Systems. Annex 1 - Project Programme, January 1995.
TRENDS - TRaining Educators through Networks and Distributed Systems. Users Requirements Specifications (deliverable 3.1), July 1996.
TRENDS - TRaining Educators through Networks and Distributed Systems. Functional Specifications (deliverable 3.2), November 1996.
TRENDS - TRaining Educators through Networks and Distributed Systems. TRENDS Teachers' Training Model (deliverable 4.1), February 1997.
TRENDS - TRaining Educators through Networks and Distributed Systems. Methodology Manual (deliverable 4.2), May 1997.