Homo Sapiens Videns

 

António J. Neto

Presidente do Conselho do Departamento Pedagogia e Educação

Luís Freches Santos

Assistente Convidado do Departamento Pedagogia e Educação

 

 

A história mostra-nos que as civilizações se desenvolveram a partir da oralidade e da escrita (ideográfica, pictográfica e alfabética). A passagem de umas instâncias a outras fez-se através de saltos tecnológicos que, ao longo dos tempos, têm sido temidos e, mesmo, em alguns casos, recusados.

A era de Gutenberg perdurou séculos. Os livros, essencialmente os escolares-universitários, têm-se apresentado como resultado do pensamento e do trabalho do homem sapiens. No entanto, quando comparados com as demais obras publicadas, são autênticos Ladas-Nivas, distantes do actual parque automóvel; requintado e refinado.

A era do audiovisual, celebrada na pujança do fósforo do tubo de raios catódicos dos receptores televisivos, transformou o homem sapiens em homo videns; de pensador em visionador.

A era informática veio disponibilizar ambientes de trabalho que evoluíram graficamente e que, de algum modo, à semelhança dos demais apetrechos produzidos pelo homem e para o homem, são resultado do pensamento humano. E, como tal, devem conjugar as duas perspectivas. Assim, os produtos informáticos, nomeadamente os aplicáveis à educação e ao ensino devem dirigir-se ao homem sapiens videns, ideia cujo desenvolvimento deverá constituir o núcleo fundamental desta comunicação.

Desenvolveremos esta ideia com base em três linhas de força: a evolução da psicologia e do conhecimento que temos da aprendizagem; a evolução da comunicação e dos meios de comunicação; e, a evolução da informática, no que diz respeito aos interfaces. Da evolução realizada nestas áreas retira-se que o aspecto fundamental da comunicação homem-homem mediada a por equipamentos lógicos e físicos deve sustentar-se em determinados tipos de estruturas, próximas daquelas que se aceitam como mais adequadas à aprendizagem e, pela facilidade de recepção de informação, deve orientar-se por elementos de características fortemente visuais.

 

 

 

O Homem na Terra

 

 

Não existem quaisquer tipo de registos efectivos do nascimento do 'primeiro homem'. Sabe-se, no entanto, que o homem só poderá ter aparecido na Terra muito depois do Big-bang, provavelmente, 60 milhões de anos depois dos dinossauros.

Dentro das perspectivas de abordagem ao próprio homem ressaltam duas, que são tidas como as mais importantes. A primeira é a de Lineu, datada do primeiro tércio do século XVIII, que perspectiva o Homo sapiens, na linha daquilo que é hoje, dando-o como surgido no Paleolítico superior, há 40.000 anos. A segunda, de King, no final do século XIX e Boule, no início do século XX, que defende a existência de um percursor, o homo neanderthalensis, datando-o de bastante mais cedo. Dá-o como tendo surgido na Terra há 100.000 anos. Tudo isto apesar de a datação de alguns dos utensílios atribuídos ao homem do Paleolítico inferior o darem como um dos povoadores da Terra há 200.000 anos (White, 1994).

Mas, o importante, por agora, mais do que apresentar certezas sobre o 'ano do nascimento do homem', é, precisamente, o relembrar a dificuldade de datar esse mesmo acontecimento.

O Homem surgiu na Terra, e, com ele, surgiram outros homens.

 

A comunicação

" o impossível é não comunicar"

Marshall Mcluhan

 

A comunicação, enquanto acto de comunhão, ainda que não se conheça a sua origem exacta, se escalpelizada nas suas diferentes vertentes, é facilmente aceite como muito anterior ao Homem. Assim, poder-se-á assumir que nasceu com o Universo, o que torna mais entendível a evolução de todo o sistema inter-galáctico e, por inclusão, do sistema terrestre.

A combinação de elementos que originaram as moléculas, que se enroscaram em ADN e estruturaram as células, tudo isso são consideráveis actos e processos de comunicação. O que é corroborável pela linha de pensamento de Pohl (1968), para quem a comunicação existe, em termos concretos ou potenciais, sempre que uma entidade aja sobre o comportamento de outra. Para tal socorre-se de elementos materiais que ambos reconheçam e aceitem.

Restringindo o pensamento a este pequeno planeta azul, e olhando-o desde um nível macroscópico, mais tardiamente, os dinossauros, que, segundo teorias mais recentes, não eram animais solitários, organizavam-se em manadas e assim viviam e caçavam. Como é entendível, a manutenção da manada obrigava necessariamente à existência de comunicação. Aliás, mesmo que fossem seres solitários, a manutenção dessa solidão obrigaria à comunicação de recusa de agregação. Aliás, o mesmo se terá passado, em termos de capacidade comunicativa, com os 'hominideos' que, saindo da ilha de Java, conseguiram atravessar o mar e chegar à ilha da Flores, a 19 Km de distância. A organização de uma travessia destas é um indício significativo da capacidade de comunicação e organização deste antecessor do homem.

 

 

A Linguagem humana

 

O Homem, apesar de animal, e do significado comum, e quase pejorativo do termo, tem-se distinguido dos demais povoadores da Terra pela sua inteligência e e elevada capacidade de raciocínio. Com base nestes atributos e capacidades desenvolveu mecanismos que lhe permitiram interpretar o mundo e exteriorizá-lo. Inicialmente, como se pode crer, sob a forma de gestos e sons relativamente desconexos, quasi-assémicos, depois executando gestos e sons caracterizadores do mundo que o rodeava. Só mais tardiamente, dada a necessidade que terá sentido de partilhar ideias, factos e sentimentos, é que se terá sentido obrigado a atribuir significado aos gestos e sons expressados e que não tinham grande relação com a realidade circundante.

O afinar do código linguístico passou obrigatoriamente pela 'leitura' das feições dos companheiros de caverna e pelo interpretar de algumas alocuções antes ininteligíveis. Iniciou-se o processo de criação de vocábulos e de significados para esses mesmos vocábulos, numa actividade que, até aos dias de hoje, não deu por concluído.

No caso humano, é arte do paleolítico, retratada no grafismo figurativo das cavernas que ilustra a capacidade humana de conservar parte das suas experiências e de as transmitir às gerações seguintes. A sua importância é plural. Em primeiro lugar valem por si mesmas, pelo significado inteligível de cada uma delas, a um nível mais profundo, de acordo com André Leroi-Gourhan (citado por White, 1994), valem pela expressão técnica manifestada, bem como pelo acervo cultural que vai corporizando uma memória colectiva (Blasco e Pataud-Celerier, 1994).

Pensando sobre os utensílios humanos, recolhidos, levantados e tratados pelos arqueólogos, a técnica utilizada no seu desenvolvimento é tão importante quanto a própria expressão oral, a que se continua a atribuir especial significado. Para os habitantes das grutas, assim ilustradas e enriquecidas, talvez algumas daquelas representações tivessem um significado exacto, desde que os seus utentes estivessem de posse do conhecimento dos códigos empregues. Caso contrário o ruído sobrepor-se-ia à mensagem, aumentaria a entropia e as mensagens recebidas, por todos os 'leitores' da caverna, seriam, em última instância, todas diferentes da mensagem emitida pelo 'pintor' incompreendido.

Como contraposição à visão de acção de Pohl (1968), e do conhecimento da própria física, aceita-se a existência e a manifestação de uma reacção. É precisamente a partir desta reacção que se percebe o mecanismo de feedback do processo comunicacional.

A expressão marcada na pedra, quer sob a forma lavrada quer sob a forma pintada, justificada na necessidade de perenidade comunicacional, e na necessidade de transmitir informações aos demais congéneres, enriqueceu e reforçou o património cultural daqueles povos. Ganhava, assim, raízes a memória social daquela comunidade.

O carácter de abstracção necessário à criação da escrita só foi atingido séculos mais tarde. Os hieróglifos são tidos como nascidos 1000 anos antes de Cristo

 

A imprensa escrita

 

Se a preservação de objectos físicos tem sido difícil de manter, apesar da preocupação humana em os coligir e, posteriormente, os preservar, como entidades de propriedade pessoal, mais difícil tem sido a preservação de usos, costumes, ritos e mitos. Esta maior dificuldade de preservação advém da imaterialidade dos entes considerados. Só aquando da criação dos mecanismos da escrita se potenciou a transmissão destes conhecimentos e experiências entre gerações. À parte este carácter patrimonial, propiciou-se o carácter histórico e filosófico dos conteúdos, de difícil propagação oral e a que, depois da escrita, foram mais facilmente disseminados e sem grandes percas de mensagem, permitindo uma reflexão crítica, distanciada, entre emissores e receptores.

Se, por um lado, "a invenção dos tipos acabou com o negócio dos escribas" (Cronin, 1997: 5), ainda que o livro agora impresso seja o herdeiro natural do livro manuscrito (Furtado, 1995), por outro, encurtou distâncias e passou a ser possível difundir o saber-fazer de outros povos, o que facilitou uma miscigenação cultural, mais dos aspectos positivos que dos aspectos negativos, crê-se.

Embora cada nova tecnologia prometa enriquecer ainda mais o conhecimento que umas gerações passarão a outras, e isto em alguns casos possa, desde o ponto de vista de alguns dos seus detractores (quase sempre conservadores), ser visto como uma moeda de duas faces de valor positivo e negativo, simultaneamente, a verdade é que "a história já nos ensinou que uma tecnologia nova não representa, na maior parte dos casos, o fim da anterior. Antes pelo contrário, em vez de substituir, potencia novas áreas, alarga mercados e cria novos tipos de aplicação" (Miranda, 1996: 68).

Foi exactamente aquilo que se passou com a imprensa escrita. Tomem-se em consideração os conteúdos dos primeiros manuscritos, ou, mesmo, o do primeiro livro impresso por Gutenberg e coteje-se o seu conteúdo com o conteúdo dos materiais impressos preservados numa qualquer biblioteca, digna do seu nome. A tecnologia de impressão aplicou-se a enciclopédias, dicionários, livros técnicos, científicos, literários, a jornais e revistas e a toda uma panóplia interminável de folhetos e panfletos.

 

A qualidade custa dinheiro

 

Um dos problemas sentidos desde que o homem começou a valorizar, em termos economicistas, o seu património e o seu trabalho, foi o de que tudo tinha um preço. Assim, nos primórdios dos tempos a questão da posse de um livro não se colocava, até pelo desconhecimento do código nele veiculado. O decorrer dos tempos levou a que o objecto livro fosse enriquecido com iluminuras e gravuras que o transformavam em peça única e de valor relativo discriminativo. O engenho de Gutenberg veio popularizar e democratizar o livro. Tornou-o quantitativa e economicamente mais acessível. No entanto, porque a dificuldade de memorização e compreensão de palavras abstractas sugere sempre uma multiplicidade de representações, foi-se tornando necessário ilustrar essas mesmas palavras. Era necessário adir imagem ao texto, gerar iluminuras sem exacerbar os preços finais dos produtos. Deste modo se passou da iluminura policroma, amanuense, à estampa a preto e branco.

Só a aplicação de novas tecnologias à impressão, como o foram a prensa a vapor, os mecanismo de poleia e tirantes, o papel distribuído em rolo, por exemplo, permitiram embaratecer o material impresso. Entrou-se então no mundo da divulgação de informação ao grande público em suportes menos nobres. Os jornais e as revistas, ainda que estes se tenham debatido, desde sempre, com problemas como:

- a determinação exacta do público alvo;

- a selecção editorial;

- o controlo de qualidade;

- a embalagem;

- os preços, distribuição e protecção de propriedade intelectual.

O livro escolar, porque mais tardio, passou apenas por parte destas fases. Pensando agora mais estritamente no mercado livreiro português, e na generalidade dos livros escolares publicados num passado recente, verifica-se que este foi objecto de políticas de conteúdos e de custos controlados. Quem se não recorda da Cartilha Maternal ou dos tradicionais livros de leitura do Estado Novo, obras que vigoraram quase tanto quanto o próprio Estado. À parte contingências efectivamente políticas, a manutenção de um livro escolar durante alguns anos tinha aspectos económicos relevantes.

 

Para causar boa impressão

 

Embora durante séculos a generalidade das obras dadas à estampa tenha sido impressa a partir de caracteres móveis, em chumbo, o que fazia com que a letragem ficasse manchada e de contorno por vezes dúbio, prontamente se foi tornando visível que as obras teriam que evoluir e tornar-se mais legíveis e apetecíveis.

Só a impressão por policromia, a duas e a três cores, permitiu começar a colorir o mundo descrito nas páginas dos livros impressos. Ainda que de início socorrendo-se de tecnologias, aos olhos de hoje, tidas por incipientes, foi possível obrigar o papel a novas passagens pelas prensas e, a cada passagem, adir nova camada de tinta, de outra cor.

Assim, do domínio da cor base, quase sempre o preto, às quatro cores do processo de impressão por quadricromia, foi um passo. Aliás, mais uma vez se tratava de um processo de transferência tecnológica, uma vez que um processo de coloração a quatro cores era já conhecido e utilizado em outras áreas.

Só que o 'princípio da adição de cor' (de Young-Helmholtz), obtido por projecção, não era aplicável à estampagem. Foi então utilizado o 'processo subtractivo' (de Hering), onde a coloração se obtinha por pigmentação. Este processo, também designado por processo CMY ou CMYK, permitia recriar sobre o papel uma relativamente vasta paleta de cores.

No entanto, o Homem, que na sua globalidade, por se tratar de um ser em evolução, e talvez por isso mesmo, é perfeccionista, predispôs-se a partir de cada estádio atingido a alcançar outro mais depurado e perfeito. Deste modo se explica, com brevidade, o abandono dos caracteres de chumbo e a utilização do processos de linotipo e a passagem deste para a fotolitografia.

 

 

Os livros escolares

 

Embora se pudesse entrar por uma análise daquilo que é o livro, propriamente dito, e reflectir um pouco sobre a velha problemática da definição de livro, "o continente ou o conteúdo ?" (Furtado, 1995: 13) apenas se abordará o livro escolar, tido como uma subclasse do livro, em geral. Assim, este, como qualquer outro livro, possui atributos como:

A classificação do livro como escolar, embora seja, desde há anos, aceite como relativamente pacífica, é difícil de estabelecer. A história mostra que, desde sempre, o livro tem andado de mão dada com a Escola e a formação, quer esta fosse de índole eminentemente religiosa, filosófica ou técnica. A cambiante designatória mais recente reside no facto de o adjectivo escolar se dever à implantação da escolaridade, com carácter tendencialmente obrigatório, que, na linha dos modelos mais recentes, tem vindo a ser alargada.

Esta obrigatoriedade de escolaridade, enquanto tão-somente permanência na escola, ao invés de obrigatoriedade de progressão escolar, sustentar-se-á na necessidade de aculturação delineada pelos distintos políticos que vão governando o ensino (educação e instrução) dos povos ao longo dos tempos. Como é natural, a percepção que o comum dos cidadãos tem desse trabalho aumenta com a distanciação temporal e com a sua capacidade crítica.

Dada a especificidade da área de mercado, e dos intervenientes, ela tem-se regido mais por exigências técnico-pedagógicas que por exigências pedagógico-técnicas. De outro modo, e pensando no caso português, as exigências técnico-pedagógicas vigoraram mais nos períodos de controlo sócio-político mais apertado e exacerbado que nos períodos democráticos. Assim se compreende a filosofia do manual escolar e do livro único. Aliás quase sempre convenientemente encadernados por forma a facilitar a passagem do carácter perene da obra que ia passando de pais para filhos, nas mesmas escolas, nos mesmos bancos e sob o olhar atento dos mesmos professores. Salvo raras e honrosas excepções.

O livro escolar, exactamente por ser escolar, é uma obra ideológica. Reflecte, implícita ou explicitamente, as ideias vigentes à época e veiculadas pelos currículos explícitos ou ocultos. Bastará para tal recordar alguns dos textos e ilustrações contidos no "Livro da Primeira Classe".

À parte os aspectos políticos, propriamente ditos, da mensagem veiculada nos livros escolares, a fatia maior de controlo social, muitas vezes apresentado de modo simpático e doce, figurado na graciosidade das crianças, vai para aspectos de índole comportamental, como os papéis representados por raparigas e rapazes.

 

O pós 25 de Abril e as aberturas proporcionadas pela democracia vieram instituir uma escolaridade unificada que se foi transformando numa escolaridade básica obrigatória com 9 anos de duração. Os reflexos verificaram-se também nos livros escolares adoptados, ainda que maneira não muito vincada, conforme se pode perceber por esta ilustração composta a partir de elementos visuais presentes em um dos livros da série Bambi.

Embora apareçam mais imagens onde rapazes e raparigas partilham brincadeiras, tarefas escolares e domésticas e tenham desaparecido as imagens de crianças a trabalhar, quer nas lidas domésticas ou em trabalhos agrícolas, constata-se que se continua a pintar a vida futura das raparigas e dos rapazes com as cores mais tradicionais. Reproduz-se assim aquilo que, apesar das aberturas, tem acontecido desde há décadas.

 

Livros escolares universitários

 

Porque a entrada na Universidade de faz depois de 12 anos de escolaridade, e admitindo que o indivíduo atingiu um estado de desenvolvimento psicológico que lhe permite realizar um pensamento abstracto, crítico e criativo, verifica-se assim que os livros escolares, genericamente utilizados no ensino superior, quase se costumavam apresentar despidos de quaisquer elementos apelativos ou que, de uma forma ou de outra, facilitassem a percepção visual dos elementos neles tratados e por eles veiculados. Tal facto talvez radicasse na necessidade de se querer uma ciência supostamente objectiva, sustentada em códigos alfanuméricos o mais matematizados possível.

Exemplo disso mesmo é a reprodução de duas páginas de um Manual de Física soviético traduzido para castelhano, a que, para sublinhar o que se refere, se aumentam dois trechos das referidas páginas. Além disso, importa ressaltar a sua compleição física, onde elementos como o papel, o grafismo, a informação, tudo, em suma, contribuía para uma certa distanciação do leitor à obra. A obra, sem data da primeira edição original, apresenta-se efectivamente como um manual científico, genérico, cerrado, sério, sisudo e taciturno.

Uma outra obra, também ela utilizada em algumas disciplinas da Física universitária, cuja data de edição é próxima da anterior, apresenta já um texto menos compacto, e com duas áreas bem diferenciadas. As colunas da área central do livro (aqui só visível numa página esquerda) são dedicadas ao corpo de informação central. As colunas mais externas são votadas a explicações complementares.

Perspectivando a abordagem desde um ponto de vista comunicacional, tem-se que se inseriram na obra elementos de contextualização e interpretação (Lepecki, 1998), sem quaisquer perdas de informação científica. A informação mantém todas as suas características de cientificidade, perde é o seu ar condensado e compacto. O papel é de melhor qualidade. A área e mesmo o volume são maiores no segundo caso, 1200 cm3 contra 973 cm3, que no primeiro. Como o mais pequeno abarca muito mais matéria que o maior, o benefício do utilizador situa-se ao nível da comodidade de leitura e da percepção da informação, uma vez que o corpo científico é complementado com explicações gráficas e textuais.

O mercado do livro tem sido praticamente idêntico aos mercados de outros produtos comercializados na sociedades livres, pelo que o mercado do livro escolar se assume como uma área relativamente dinâmica. A atestar isso mesmo está a panóplia de obras de referência que semestralmente são recomendadas aos alunos de qualquer curso superior. A sua importância económica, derivada também da consciencialização dos direitos de propriedade intelectual, vulgo direitos de autor, é tal que algumas editoras começam já a enviar para alguns docentes do ensino superior exemplares de livros e manuais científicos, passíveis de ser contemplados e recomendados na bibliografia das disciplinas que leccionam.

Atente-se agora em dois exemplo de manuais de Química Orgânica. O conhecido livro de orgânica da Gulbenkian e outro, mais recente,

- VOLLHARDT, K. Peter, SCHORE, Neil E. (1994). Organic Chemistry. 2 ed. New York: Freeman.

Comparando, com brevidade e, por isso mesmo, insuficiência, os índices dos livros verifica-se que qualquer deles poderia servir de base de estudo a um aluno da disciplina de Química Orgânica. No entanto, a preocupação que o segundo autor teve em tratar a informação graficamente foi muito maior que o primeiro.

Modelo molecular do hexano. A representação tridimensional ilustra bem o zigzag da cadeia dos alcanos. (Volhardt e Schore, 1984: 52)

Representação electrónica da reacção E2 do 2-cloro-metilpropano com o ião hidróxido (Volhardt e Schore, 1984: 221)

Representação orbital da reacção E2 do 2-cloro-metilpropano com o ião hidróxido (Volhardt e Schore, 1984: 221)

 

 

 

Não é de ignorar que entre um e outro medeiam sensivelmente duas décadas. Este lapso de tempo serviu, entre outras coisas, para optimizar técnicas de representação gráfica, de impressão e, inclusivé, para alcançar preços cada vez mais baixos, função da qualidade preço do produto final. De todas as formas o que importará reter é o benefício daí advindo, em termos de mais valias de exposição e de apreensão, para autores e estudantes.

 

 

O computador

 

Tal como o carro, nas suas mais diversas variantes, se tem apresentado como uma extensão das pernas humanas, ou como órgão locomotor, artificial, do homem, o computador, apesar de se ter apresentado ao homem como mais um objecto multiuso, intenta ir mais longe, afirmando-se-lhe como uma prótese cognitiva, mais evoluída e evolutível que todas aquelas que ele já conheceu e utilizou.

O processo evolutivo, apesar de aparentemente meteórico, tem sido, na verdade, relativamente lento, gradual, apesar da cadência ritmada. O compasso é que tem vindo a tornar-se mais rápido. A sua utilização prática tem acompanhado esta métrica.

Os desempenhos manifestados por alguns apetrechos desenvolvidos pela electrónica, como o transistor e os circuitos integrados, proporcionaram ao homem um 'regresso ao futuro', um retorno visual - ainda que alfanumérico dos dados introduzidos na máquina -, através de um monitor monocromático. Este novo periférico de saída potenciou a bidireccionalidade da comunicação entre o sistema e o utilizador, uma vez que o primeiro recebia informação do segundo, via teclado, e lhe respondia projectando para diante do mesmo (pro-jacere = lançar para a frente) a resposta então encontrada.

Embora nos meados dos anos 50 se tenha percebido que o computador poderia manipular imagens da mesma forma que tratava números e letras, só nas décadas seguinte se iniciaram os primeiros passos na computação gráfica.

Muitos são os que se recordam os tempos em que os sistemas informáticos se comportavam como sistemas (rudimentares, é certo, mas onde o todo não era igual à soma das partes). Bastará para tal relembrar os trabalhos digitados nos primeiros processadores de texto. Eram programas, já então, capazes de manipular blocos de texto, desde que o operador soubesse infestar adequadamente o corpo do texto de caracteres de controlo que obrigassem a impressora a realizar tarefas inexecutáveis pelo processador de texto. Em tarefas mais rebuscadas, como o exigiam alguns trabalhos científicos, e ainda que os textos, obtidos a partir de uma sucessão relativamente simpática, dada a novidade, de pontos que se aglomeravam para se assemelharem a letras e números que, espraiados ortogonalmente até se conseguiam fazer entender como gráficos a combinação de uns elementos com os outros era tecnicamente impossível, a não ser por artes de montagem amanuense.

Mais tardiamente, com o aparecimento de programas integrados, começou a ser funcionalmente possível realizar parte das tarefas hoje tidas como triviais, ainda que para tal se tivesse que encher o monitor de arabescos graficamente desconexos que exigiam ao operador resolver mentalmente a inoperacionalidade organizacional e funcional do sistema em apresentar no monitor aquilo que iria ser impresso no papel.

Vivia-se um período em que as necessidades suplantavam as possibilidades dos equipamentos. No entanto este período foi relativamente breve. O desenvolvimento de interfaces gráficos ganhou ímpeto cada vez maior, pelo que os investigadores se apostaram em criar, mostrar e manipular informação sob forma bi e tridimensional. Assim, as aplicações adquiriram maior impacto visual e possibilitaram aos utilizadores novas perspectivas de utilização. Todavia, este avanço veio a ser refreado pelos factores económicos marcantes da década de setenta. A sua retoma apenas veio a acontecer na década de oitenta e de forma lenta ainda que decidida. Levando a aceitar que, de um certo modo, se está a "assistir à humanização da máquina" (Deus, 1990:136) tornando-a mais ergonómica e tentando desenhá-la à imagem e semelhança do criador.

Talvez por isso mesmo, o computador, por ser posterior à escrita, à imprensa, ao telégrafo, ao telefone, ao cinema, à rádio e à televisão, para referir apenas alguns dos meios de comunicação mais importantes, beneficiou das aprendizagens resultantes da operação de todos e de cada um deles, pelo que um dos pontos em que se notou e reforçou este avanço foi o da interactividade homem-máquina.

 

 

 

A Tecnologia

"A tecnologia é só uma ferramenta"

(Wang, 1997: 12)

 

A tecnologia pode ser entendida como a forma de utilização das técnicas e, conforme se referiu anteriormente, a expressão da utilização da técnica é efectivamente importante para perceber a evolução da mesma e, por extensão, do estádio de desenvolvimento do técnico que a expressa. Em suma, perspectivando-a como algo humano, poder-se-á, também, falar de um tempo cronológico e de um tempo biológico. O tempo cronológico da época em que aconteceu e se desenvolveu e o tempo biológico associado ao estado de desenvolvimento do próprio homem, uma vez que a sua capacidade de utilização e exploração prende-se com o seu estado de desenvolvimento mental, que é electro-químico.

Centrando a atenção na geração de alunos que dá corpo ao sistema escolar básico, dado o seu enorme interesse pela televisão e, mais recentemente, pelas consolas de jogos, passou já a ser designada por geração do vídeo. De acordo com a opinião de professores e pais, os jovens estão cada vez mais cativados pelo vídeo, pela música e pelos jogos de computador do que pela informação apresentada na tradicional forma livresca, tida como mais pesada e fastidiosa. A tradução pragmática desta ideia espelha-se tanto na quebra da venda de livros como no contínuo aumento de vendas de CD-ROM, o que acaba por confirmar, ainda que parcialmente, a ideia de que "as novas tecnologias estão a produzir um sistema social biunívoco sustentado dialecticamente pelo progresso e a destruição" (Ferreira, 1988: 70) onde uns acederão a um número cada vez maior e mais diversificado de meios tecnológicos em detrimento de outros que verão as suas condições de vida degradar-se como resultado de umas quantas aplicações e restruturações tecnológicas.

 

Iluminuras tecnológicas

 

Ultrapassada que foi a era CLS (command line system) (Chin et al., 1988) onde se encaixam o DOS, enquanto sistema operativo, e o WordStar, enquanto programa de utilização aberta, por exemplo, e para apenas referenciar dois fenómenos de popularidade do seu tempo, com a introdução de ambientes GUI (graphical user interface) (Kindersley, 1996) popularmente encabeçados pelo GEM e ultrapassados pelo Windows (nas suas diversas versões) rapidamente vingaram no mercado interfaces do tipo MDA (menu driven application) (Chin et al., 1988), como qualquer das diversas versões do Word, produzidas para correr em cima do Windows.

Esta possibilidade de recriação gráfica em sistemas informáticos veio viabilizar a construção de diferentes tipos de interfaces de trabalho e de variados menus de selecção de objectos e opções, veio facilitar muito o trabalho do homem com este relativamente novo artefacto. Deste modo a utilização do computador e da informática, dada a disponibilidade humana para a aprendizagem e a sua adaptação à mudança, puseram em jogo modalidades de pensamento metódicas e sistemáticas (Fonseca, 1994) que levaram ao desenvolvimento de produtos informáticos gerados a partir de informação não digital que, após tratamentos diversos, passou a ser servida interligada e interactivamente, apresentando-se, aos olhos dos leitores, com o mesmo brilho que, há séculos, resplandecia das primeiras iluminuras dos ilustradores e copistas.

 

Interfaces por camadas de informação

 

A possibilidade de incorporar diferentes tipos de informação num mesmo sistema que, até então, se tinha comportado deterministicamente, onde a um input correspondia um mesmo output levou à possibilidade de gerar diferentes opções de saída com base nas mesmas premissas. Tal facto, aliado talvez a uma certa imaturidade técnica e tecnológica de equipamentos e desenvolvedores, levou a que, nesta perspectiva de integração de texto e de imagem, embora a integração acontecesse em termos físicos, não acontecia em termos lógicos e estruturais. Deste modo as imagens sobrepunham-se aos textos que se sobrepunham a outros quaisquer objectos presentes no monitor do sistema.

Acontece que o sistema já não era exactamente o mesmo. Se por um lado existia o domínio da objectividade, faltava, ainda, o domínio da complexidade (Deus, 1988), pelo que, parte o brilho emanado da forma, mais que do conteúdo, começava a perder parte do seu resplendor, ainda que tivesse durado tanto quanto o factor novidade.

À parte a não integração efectiva dos elementos constitutivos do produto verificava-se que as imagens e os sons agora incorporados ocupavam muito espaço lógico em disco. Assim, se no dizer do ditado chinês, "uma imagem vale por mil palavras", agora constatava-se que uma imagem, correspondente a um ecrã inteiro, valia por 150.000 palavras (Kindesley, 1996). No entanto, era disso mesmo que os utilizadores estavam à espera, da troca da palavras por imagens. Ainda que isso não viesse a acontecer em toda a extensão da obra, rapidamente se ultrapassou o limiar do aceitável. Os discos rígidos começaram a ser substituídos por CD-ROM que, ao verem a sua capacidade atingir o limite (700 MB), começaram a ser substituídos por DVD's.

 

 

Interfaces integrados

 

Só com o repensar do sistema informático desde um ponto de vista hipermedia foi possível começar a gerar estruturas de 'navegação' cada vez mais complexas onde cada utilizador pudesse seguir percursos mais condizentes com os seus interesses e necessidades, situação efectivamente mais adequada às questões de índole educativa, onde se confrontam sistemas de ensino e sistemas de aprendizagem, distintos, que deverão reagir dinamicamente.

Conforme se pode antever, dada a designação deste tipo de interfaces, nele todos os constituintes aparecem física e logicamente interligados. Já não surgem janelas sobre janelas, com caixas e menus activos que, apesar da sua funcionalidade, retiram, logo à partida, grande impacto estético e visual ao produto final. A base principal do produto já não é o texto, alfanumérico, mas a imagem, ainda que esta seja texto iconográfico.

Significa isto dizer que esta nova geração de programas, de algum modo influenciado até pelos jogos, representam uma "nova forma de expressão artística, combinando a música, o desenho, a escrita e a informática. Uma arte quase tão complexa como as formas clássicas do audiovisual" (Diberder, 1993: 5), que se fundamentam na "existência de uma nova racionalidade tecnológica" (Ferreira, 1988: 76) que contribui para um redimensionamento das funções cognitivas do próprio homem (Ferreira, 1998)

Agora todos os elementos presentes na aplicação surgem aos olhos do utilizador integradamente, corporizando-se num todo equilibrado, harmonioso e homogéneo. Atentem-se em pormenores como a possibilidade de visionar:

As opções disponibilizadas ao utilizador passam por um conjunto alargado presente alinhado na horizontal do écran, onde alguns se apresentam como desdobráveis, do tipo pull-up. Como é, por exemplo o menu Tópicos. À parte estes menus que perpassam a aplicação de fio a pavio, existem ainda opções específicas da página e do tema aí tratado. Por forma a marcar essa distinção, as opções aparecem sob a forma de texto, retro-iluminado quando seleccionado e/ou activado (como era o caso das 'Características'). Os textos, sempre que um pouco maiores, podem ser 'corridos' a partir das setas que o farão rolar, página-a-página, sem que para tal apareçam as caixas e os elevadores típicos do Windows da Microsoft.

Em suma, neste novo tipo de aplicações informáticas, prolixo em conteúdos e diverso em tecnologias de tratamento de informação, orienta-se por uma filosofia organizativa, em termos de constructos, e estética, muito mais europeísta que as anteriores, mais americanizadas. De outra forma, poder-se-á defender que estes produtos são construídos desde um ponto de vista construtivista, humanista e humanizado que relegam para segundo plano os delumbramentos tecnológicos e os submetem ao rigor de uma construção orienta para o serviço que devem prestar. O apelo visual, que continua a existir, é potenciado a aplicado a todos os elementos, por forma a que o pontual não se sobreponha ao essencial.

 

 

Síntese

 

A investigação na produção de materiais documentos - media - passíveis de serem utilizados em contextos educativos é bastante antiga e anda quase sempre desfasada no tempo. Tal facto dever-se-á a grandeza dos desafios que se colocam à nossa sociedade que, "desde a pedra lascada ao computador", tem passado por uma "evolução lógica do simples para o complexo, sempre no sentido de melhorar o posicionamento racional do ser humano nas suas múltiplas relações com a natureza e consigo próprio" (Ferreira, 1988: 72). Assim se compreende que não haja modelos a copiar, pelo que "cada sociedade cria o seu tipo adequado de saber, as suas técnicas pertinentes em relação aos fins visados e as formas integradoras da sua transmissão" (Prieto, 1988: 130-131).

Desde um ponto de vista da necessidade de modernizar os procedimentos educativos, não duvidamos que tal continue a ser uma prioritário, mas já não nos parece que seja tão urgente e tão premente investir em soluções importadas. Aquilo que deveremos fazer é forjar "a nossa capacidade para enfrentar a mudança, integrando os nossos recursos específicos, os nossos interesses e valores" (Baptista, 1988: 243) tanto mais que investigações sobre os media nos parece que devam orientar-se mais para os contextos organizacionais que para contextos materiais. É certo que os computadores podem ser encarados como catalisadores de uma nova evolução da realidade pessoal, escolar e laboral de todos os cidadãos. No entanto não se deverá perder de vista a opinião de Friedman quando afirma que as mudanças a operar na educação não se realizarão pelos computadores, mas pelos professores. Os computadores deverão continuar a ser encarados como recursos educativos, válidos desde que escandados por programas que ajudem a enquadrar essa mesma realidade de mudança.

Podem-se, sem grande problema, relembrar palavras de Gordon Bell, quando afirmava que "ainda falta muito para sabermos comunicar facilmente com estas máquinas - os PC" (Rodrigues, 1997: 4), pelo que a generalidade dos trabalhos de reflexão crítica e os trabalhos de investigação aplicada serão, fazendo fé na sua objectividade, sempre úteis e pertinentes.

De um ponto de vista da utilização didáctica destes materiais tudo aponta para que o papel do professor deva ser revisto e acrescido. Assim, deveriam também os futuros professores ser confrontados com o:

 

Bibliografia

 

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